A arte como resistência

Raquel Santana (*)

Londrina sempre foi careta, embora se vista com um manto de modernidade. Os últimos acontecimentos, iniciados com a Tradição, Família e Propriedade esbravejando com a igreja católica ao ponto de pagar outdoors na cidade para criticar o arcebispo até o episódio do Hugo Simas, a cidade tem-se demonstrado pra lá de careta.Tenho acompanhado tudo, estarrecida.

Embora jovem de idade, a cidade vem se comportado como uma velha senhora, já no ponto de caducar. Acho que são sinais dos tempos em que vivemos, pois em sua essência, sempre foi vanguardista. Graças a Deus meus amigos londrinenses são todos malucos. Nas últimas edições do FILO, no entanto, a cidade vem demonstrando o quanto estamos regredindo como seres humanos.

O FILO, em seus 51 anos,já demonstrou que é muito mais do que uma boa ideia. Em seus primórdios, o festival surgiu como peça de resistência à ditadura. Foi criado em pleno 1968 e tinha a política como um de seus principais focos de discussão. No início contemplava as outras artes, mas com o tempo passou a ser um festival exclusivamente teatral, em 1970. Em 1988 ganha o status de festival internacional e dois anos mais tarde é renomeado como FILO.

Em seus 51 anos, trouxe para a cidade nomes do teatro nacional e internacional. O festival já levou para a cidade nomes como Kazuo Ono, por exemplo. A presença de grupos internacionais de vanguarda sempre foi forte, enfim, um sopro de cultura em pleno norte paranaense. Apesar de sua importância, como toda arte, o festival vem incomodando os caretas da cidade. Com o passar do tempo, acredito, a cidade vem involuindo.

Lembro que no início do Proteu, em uma das peças a atriz Margarise Corrêa se embalava num balanço sem calcinha. Subia e lá do alto abria as pernas e voava no palco. Na época, só ouvi risadas da plateia. Eram os frenéticos anos oitenta. Mas também foi nessa época que enfrentamos um caso de preservação dos bons costumes da cidade.

Em pleno verão, um amigo foi impedido de entrar de bermuda no Cine Ouro Verde. Além de levarmos o caso para a imprensa local, resolvemos nós, as meninas da república, ir ao cinema com roupa bem curta, para provar a discriminação. Lembro que fui com uma micro saia que não devia ter mais do que um palmo e uma mini blusa. Claro que entramos. Fizemos um auê na porta do cinema. Tiveram que pedir desculpas e mudar a norma. Em tempos em que a censura ameaça bater novamente em nossas portas, é importante que resistamos. Seja com arte ou em pequenos gestos.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina

Foto: Facebook do Proteu

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