2020, o ano que não existiu

Vou pular de 2019 direto para 2021. Esse ano não será contabilizado no meu calendário pessoal. Foi um ano para esquecer e ser lembrado ao mesmo tempo. Lembrar que não existiu. Não fiz praticamente nada do que planejei. Nem as gavetas, cuja limpeza e despejo de algumas peças no início do ano, terminei. Continuam lá, em busca do desapego prometido, esperando outro corpo para ocupar.

Ao longo do tempo fui quebrando e fazendo promessas. Prometi não me estressar ao sair na rua e ver pessoas sem máscaras. Quebrei. Prometi me estressar com as pessoas sem máscaras. Também quebrei. Simplesmente decidi fazer o meu dever de cidadã nessa pandemia, e que cada um fizesse o seu, também.

No início, confesso, fui bem neurótica com os cuidados de higiene. Lavava absolutamente tudo o que entrava em casa. E sim, corri para os supermercados e deixei meu décimo terceiro salário todo em não perecíveis. O bom é que tem coisas que até agora não precisei repor. Hoje, só higienizo as sacolas. E claro, as minhas mãos. Compulsivamente.

Frequentar bares e restaurantes? Nem pensar! Como viver sem delícias como as coxinhas de uma confeitaria famosa de Curitiba? Não se vive. Por mais essa desfeita, o ano não existiu. Claro que fui buscar uma no sistema “take away”. Decepção total, veio sem o catupiry. Aliás, o sistema delivery foi uma mão na roda para muita gente. Nunca se pediu tanta entrega de comida no país.

Entre os meses de abril e junho, os gastos com os principais aplicativos de entrega de comida (Rappi, Ifood e Uber Eats) cresceram 94,67% no período, ou seja, quase dobraram na comparação entre janeiro e maio de 2019. Um negócio e tanto.

Tirando o supermercado e a vendinha de frutas, verduras e legumes localizados ao lado de casa, comprei quase tudo pela internet. Inclusive roupas, que até hoje não usei. Também não fui ao médico, já que tive minhas consultas desmarcadas e muita dificuldade em reagendar qualquer procedimento. Para quem é grupo de risco, como eu, é muito descaso do poder público.

Entre tantos “abre e fecha” na Capital, acabei me refugiando na serra. Achei que por aqui estaria livre de contaminação. Livre estou, livre estou porque estou isolada numa chácara. Basta ir às cidades próximas, em particular aos finais de semana, para ver que para muita gente, a pandemia já acabou. Muito aglomeração.

Restaurantes cheios de turistas que chegam aos bandos em ônibus e circulam desmascarados pela cidade.

Agora, com a chegada das festas do fim do ano, é só esperar – e ver pela TV- o número de mortos de uma pandemia que para muita gente, também não existiu. Assim como 2020. O ano que será retirado do calendário. Do meu, pelo menos.

Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!

Foto:  Jeffrey Czum no Pexels

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