Preconceito: sem razão de existir

Volta e meia (res)surgem infelizes acontecimentos que, na realidade, trazem de volta à tona a vergonha de sermos uma sociedade preconceituosa, revelando, nada menos, que um racismo estrutural e enraizado na essência brasileira. E mundial, talvez. Vide dois casos, essencialmente, “a ponta do iceberg”, justamente, por esconderem o turbilhão preconceituoso por trás: o garoto João Pedro, de 14 anos, morto em operação da Polícia Militar (PM), no Rio de Janeiro, e George Floyd, de 46 anos, morto asfixiado numa ação policial em Minneapolis, nos Estados Unidos.

O que os dois relatos têm em comum? Além do fato de ambos terem sido mortos pela polícia, ou seja, por uma autoridade que deveria protegê-los, são negros: um adolescente brasileiro e um adulto norte-americano. E o que isso tem a ver com a filosofia? Em primeiro lugar, que esse tipo de pensamento e atitude revela muito sobre quem nós somos. Ou que sociedade somos. Ademais, é a filosofia uma poderosa arma contra qualquer tipo de preconceito, de modo especial o racial, mas, sobretudo, todos!

O filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), por exemplo, analisa aspectos psicológicos que permitem a compreensão do que possibilita o desenvolvimento de sentimentos preconceituosos. Para ele, a existência precede a essência. O que significa dizer que o ser humano é uma construção decorrente de suas escolhas. Portanto, não podemos dizer que ser preconceituoso faz parte da essência das pessoas. Antes, porém, é fruto das escolhas: de como decidimos olhar o outro, educar as gerações seguintes e sobre como (não) respeitamos aqueles que julgamos inferiores, por uma razão ou outra.

Sartre vai além: se nascemos livres de uma natureza pré-definida, somos apenas o resultado de nossas escolhas. Aristóteles já dizia isso, não? “Somos o que fazemos repetidamente”. Dessa forma, não importam características como cor da pele, dos olhos, dos cabelos ou nacionalidade, idioma ou qualquer outra característica física. O importante é quem decidimos ser, quem escolhemos ser. Isto é, que construção social faremos de nós mesmos e dos preconceitos que encrustaremos em nossa essência.

Assim, não faz qualquer sentido ser racista ou preconceituoso. Percebe? Porque, da mesma forma que os preconceitos se constroem socialmente, também é possível desconstruí-los. E, acredito, já passamos da hora de fazê-lo. Em pleno século XXI, é imbecilidade humana matar, ferir ou constranger, pura e simplesmente, por causa de preconceito.

Foto: Pixabay

Fábio Luporini

Sou jornalista formado pela  Universidade Norte do Paraná e sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Fui repórter, editor e chefe de redação no extinto Jornal de Londrina (JL), atuei como produtor na RPC (afiliada da TV Globo), fundei o também extinto Portal Duo e trabalho como assessor de imprensa e professor de Filosofia, Sociologia, História, Redação e Geopolítica, em Londrina.

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