Os hatters, a liberdade de expressão e a modernidade líquida

Vivemos tempos líquidos. Nossas relações, permeadas pelas ferramentas digitais, estão cada vez mais volúveis. Amores, amizades e valores têm escorrido diariamente pelos ralos da sociedade. Vão-se embora a educação, o respeito, a dignidade, o carinho, o altruísmo, a alteridade, entre tantos outros. Isso é fato. Já falei aqui, citando o já muito citado filósofo e sociólogo polonês Zygmund Bauman (1925-2017), autor das teorias sobre a modernidade líquida. Infelizmente, sua teoria se verifica na prática. No dia a dia mesmo. Na vida das pessoas.

Outro dia presenciei situação semelhante. Vivi na pele. Senti na carne. E fiquei extremamente assustado. Vou contar o fato genericamente: gravei um vídeo, sob a tutela de uma marca, explicando um tipo de trabalho, um tipo de serviço que ofereço, que é o de realizar cerimônias de casamento além ou aparte daquelas celebradas pelas religiões ou por juízes de paz. Pois bem, usei um termo diferente do que se normalmente usa entre os profissionais da área. Fui massacrado virtualmente por pessoas que eu nunca vi na minha vida e que jamais trataram comigo qualquer tipo de diálogo.

Disseram-me que isso tem nome: hatters, ou odiador, que na prática significa o tipo de pessoa que azucrina outras nas redes sociais, que xinga, que desqualifica por qualquer razão. Eu já sabia que eles existiam. Entretanto, nunca havia sentido na pele o poder de destruição que eles tinham. Destruição moral mesmo. E até psicológica! É um efeito devastador. Talvez porque extrapole os limites do bom senso e da liberdade, essa última garantida em Constituição, inclusive.

Mas, o que tudo isso tem a ver com a filosofia? Voltemos ao parágrafo inicial: por vivermos tempos líquidos, em que tudo se esvai de nossas mãos, não temos nenhum pudor em atacar alguém que não conhecemos, pelas redes sociais, porque não sentimos remorso, culpa ou qualquer sentimento de compaixão. Afinal, tudo escorre pelo esgoto virtual: basta deixar de seguir, bloquear, excluir ou apagar comentários. Como se não existisse ou como se não tivesse sido feito. E aí que reside o problema.

Por isso, gosto sempre de citar uma frase durante muito tempo atribuída ao filósofo iluminista francês Voltaire, mas dita mesmo pela escritora inglesa Evelyn Beatrice Hall, que é adepta do pensamento dele: “Discordo do que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo”. Isso tem muito valor. E é um exercício muito difícil de fazê-lo: aceitar o que as outras pessoas dizem, mesmo discordando e até quando as palavras são ofensivas. Esse é um dos fundamentos da democracia. Quando perdermos isso, perderemos tudo.

Foto: VisualHunt

Fábio Luporini

Sou jornalista formado pela  Universidade Norte do Paraná e sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Fui repórter, editor e chefe de redação no extinto Jornal de Londrina (JL), atuei como produtor na RPC (afiliada da TV Globo), fundei o também extinto Portal Duo e trabalho como assessor de imprensa e professor de Filosofia, Sociologia, História, Redação e Geopolítica, em Londrina.

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