O Bob Esponja é gay. E daí?

Vive num abacaxi e mora no mar? Tem a cor amarela e espirra água? Se nenhuma bobagem é o que você quer? Diabruras a bordo e problemas com peixe? Bob Esponja Calça Quadrada! Se você respondeu isso em todas as perguntas, é porque você é fã desse personagem famoso dos desenhos animados, criado pelo biólogo marinho, norte-americano, Stephen Hillenburg, na década de 1990. Vendido em 1998 para o canal Nickelodeon, Bob Esponja se tornou um sucesso mundial. Ah, e ele faz parte da comunidade LGBT+. A notícia foi confirmada pelo próprio canal, agora em junho, em pleno Mês do Orgulho LGBT. E eu pergunto: e daí?

No jornalismo, um dos critérios para que algo se torne notícia é seu ineditismo. Não deveria ser assim quando o assunto é a revelação da homossexualidade de alguém, não importa quem seja: um personagem de desenho, uma estrela famosa ou qualquer outra pessoa. Ao contrário, isso deveria ser algo natural e não definir nada ou ninguém. Infelizmente, não é bem assim que as coisas funcionam. Em pleno século XXI! Que coisa, não? Para as reflexões de hoje, vamos viajar à Grécia Antiga, onde os relacionamentos homossexuais existiam com certa frequência, muito embora haja controvérsias acerca do surgimento e das razões para isso.

Vamos nos deter em Sócrates, o filósofo marco da filosofia ocidental, tanto que o mundo filosófico é dividido em antes e depois dele. Não é segredo para ninguém que ele mantinha relações homossexuais. Indicações disso podem ser encontradas no livro O Banquete, escrito por seu discípulo Platão: nele, a relação do pai da filosofia com Alcibíades, que versa sobre o eros (um conceito de amor carregado de carga erótica), é evidente, já que o autor se refere ao jovem mais belo de Atenas que se apaixonou pelo velho mais feio. Nada disso impediu que o pensamento revolucionário de Sócrates chegasse até nossos dias.

Leonardo da Vinci, que, além de pensador, se destacou também como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico, por diversas vezes se assumiu gay. E, tal qual Sócrates, enfrentou preconceitos, o que o levou a quase ser preso por diversas vezes. Veja que, mais uma vez, uma condição dele não foi obstáculo para que produzisse obras maravilhosas de arte, ciência e engenharia. Afinal, não é a hetero ou a homossexualidade que define esse tipo de coisa. No século XXI nós já passamos por esse estágio, certo?

Outra referência no assunto, embora controversa, é a filósofa Simone de Beauvoir, esposa do também existencialista Jean Paul Sartre. Defensora da liberdade, fazia uma leitura sobre homem e mulher como algo socialmente imposto e inquestionável. Daí surge a frase e a ideia de que “não se nasce mulher, torna-se”. Ou seja, a hetero ou a homossexualidade como algo construído em sociedade. Independentemente de que ideologia ou pensamento se defenda (afinal, não é obrigatório que todo mundo concorde com tudo), deve-se prevalecer o respeito. E notícias como o anúncio de uma pessoa se assumindo gay não deveria ser algo fora da normalidade a ponto de ser destaque na imprensa. Por isso a pergunta do título: e daí? Compreende?

Fábio Luporini

Sou jornalista formado pela  Universidade Norte do Paraná e sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Fui repórter, editor e chefe de redação no extinto Jornal de Londrina (JL), atuei como produtor na RPC (afiliada da TV Globo), fundei o também extinto Portal Duo e trabalho como assessor de imprensa e professor de Filosofia, Sociologia, História, Redação e Geopolítica, em Londrina.

Foto: Pixabay

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