Mentira é mentira: quando ela se torna antiética?

O bruxinho mais famoso dos livros e do cinema vive cercado de um universo fantástico e imaginário. Harry Potter e seus amigos fazem coisas que a realidade jamais poderá fazer, assim como convivem com monstros e criaturas completamente inexistentes. As histórias e narrativas exercem um fascínio e um encantamento em milhões de leitores e espectadores mundo afora. Mas, tudo isso é completamente mentira! Não existe! Essas invenções que se caracterizam mentirosas, podem ser consideradas antiéticas?

É nesse calabouço da verdade que encontramos um dilema: inventar uma história é inventar uma mentira? A princípio, é preciso registrar que o fundamento continua o mesmo, seja uma pequena ou grande mentira, seja sobre uma história, uma narrativa ou um fato real. Isso quer dizer, portanto, que o problema não reside em ser uma história imaginária, tal quais narrativas poéticas, teatrais, de livros ou cinematográficas, ou ser uma narrativa real com o objetivo de mascarar uma situação.

Ao contrário, o problema está justamente na motivação da mentira contada. Afinal, mentira é mentira de todos os jeitos. Entretanto, se a história inventada tem o objetivo de entreter, divertir ou provocar reflexões, como os livros, o cinema ou o teatro, então é compreensível que as invenções sejam toleradas. Ao passo que é refutável justamente o fato de se inventar coisas para esconder a verdade, embaçar a realidade ou propositadamente arranhar imagens e reputações. Esse já não é mais um problema “mentiroso”. É, ao contrário, de honestidade e de caráter.

O que, infelizmente, está arraigado no modo de agir das pessoas. Do brasileiro, mais especificamente. Já dizia Aristóteles que um hábito repetido exaustivamente torna-nos o que somos. Mentiroso é aquele que mente repetidamente. E que, em sua vida, confunde realidade com mentira, adicionando pequenas invenções nas pequenas histórias que conta. Não precisa ser um grande mentiroso para ser mentiroso. Como não precisa ser um grande ladrão para ser ladrão. Quem rouba R$ 1 tem o mesmo fundamento que quem rouba R$ 1 milhão: os dois são ladrões. Em proporções diferentes, mas ambos têm o mesmo fundamento. O mesmo vale para os mentirosos. 

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