Detalhes e entrelinhas que revelam o caráter do brasileiro

O vídeo da reunião do presidente Jair Bolsonaro com seus ministros, no dia 22 de abril, divulgado um mês depois, no dia 22 de maio, por decisão do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), expõe um repugnante modo de ser do brasileiro, com traços de um típico estereótipo conservador, machista e beligerante. Não quero nem tenho competência para analisar os méritos do conteúdo da reunião, afinal, isso já foi amplamente difundido pela mídia, em geral. O que quero colocar em discussão neste espaço são os detalhes e as entrelinhas do pensamento escondido por trás de algumas falas e atitudes, não apenas do protagonista, mas, também, de seus coadjuvantes.

Os xingamentos, proferidos sem qualquer pudor, mostram que a fala de um chefe de Estado está carregada de preconceitos enraizados na cultura do povo brasileiro. Veja: não tem problema usar palavrão. De vez em quando são as únicas palavras que definem uma situação. Ou, até mesmo, que dão certo alívio. Entretanto, dirigir palavrões e outros tipos de xingamentos a outras pessoas, principalmente, quando elas representam instituições públicas e, em última análise, até mesmo a democracia, faz com que o nível de maturidade e discussão desça à quinta série. E preocupa, porque esconde ameaças à harmonia do funcionamento republicano.

Assim como mandar prender o outro, simplesmente, por não gostar dele ou por discordar do pensamento alheio. É nesse clima de guerra que queremos afundar o país? Os representantes da nação, que não exercem a alteridade e a empatia, refletem, infelizmente, o modo de comportamento dos que os colocaram lá. Ou seja, Brasil afora há milhões de pessoas que não estão nem aí para entender e compreender o outro.

Aliás, esse individualismo que esmaga a noção do público, também é uma realidade. Quando o chefe da nação diz estar preocupado com sua família, não é porque ele dá importância ao convívio familiar. Na verdade, é uma forma de se auto beneficiar, passando por cima das noções de ética, moral e justiça. Um retrato infeliz do caráter do brasileiro, do que Sérgio Buarque de Holanda diria a respeito do nosso jeito de ser. Poderíamos, se quiséssemos, discorrer aqui sobre tantos outros momentos e falas dessa reunião. Teríamos ainda mais certeza de que o que se diz no privado revela muito mais de quem somos do que mostramos ao público.

Fábio Luporini

Sou jornalista formado pela  Universidade Norte do Paraná e sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Fui repórter, editor e chefe de redação no extinto Jornal de Londrina (JL), atuei como produtor na RPC (afiliada da TV Globo), fundei o também extinto Portal Duo e trabalho como assessor de imprensa e professor de Filosofia, Sociologia, História, Redação e Geopolítica, em Londrina.

Foto: Pixabay

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