CICLO e Open Program promovem encontro sobre a cultura em situação de rua

Evento reúne projetos, de vários países, que levam a arte para moradores de rua. Londrina é representada pelo Projeto Brisa, da Funcart

O LONDRINENSE com assessoria

Nesta quinta-feira (19), o CICLO – Circuito de Artes e Conceitos de Londrina – em parceria com o Open Program – Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards e o Projeto Brisa, da Funcart, realizam o primeiro evento público do “Cartão de Visitas”, uma das ações proposta pelo CICLO para 2020. Às dez horas da manhã, na plataforma Zoom e com transmissão pela página Facebook do CICLO, acontece um encontro on-line entre os participantes do grupo italiano, os integrantes do Brisa e convidados da Argentina (Proyecto Realidad Empoderada), França (Bastion de Bercy) e Estados Unidos (Community of Hope – NYC). Batizado de “Ações que sustentam a vida: Arte & Cultura em situação de rua”, o evento pretende promover a troca de experiências, uma ocasião para confrontar existências de arte e cultura entre pessoas que compartilham a mesma realidade.

“O CICLO cumpre sua missão ao realizar trocas que possibilitam ampliar a nossa visão sobre pessoas e populações em situações diversas”, afirma Maria Fernanda Coelho, da Palipalan Arte e Cultura. “A troca entre o Open Program e o Brisa mostra a potência da escuta e da ação que advém dela. A arte da (e na) rua também invade o universo virtual. Celebramos e buscamos, juntos, caminhos que de alguma forma nos fortaleçam”, completa.

Assim como as outras ações do CICLO, o Cartão de Visitas foi se transformando diante dos desafios impostos pela pandemia e a impossibilidade de ter o Open Program em Londrina. A proposta inicial era que o primeiro encontro acontecesse no ambiente virtual, mas que, em dezembro, isso seria presencial. O endurecimento dos protocolos de saúde levou toda a organização do evento a procurar, junto com Open Program, alternativas para que tudo não parasse, mesmo com o avanço da pandemia nos dois continentes. “O CICLO segue em transformação a partir dos desejos e necessidades dos envolvidos. A pandemia serve de combustível para reinventar ações. Mais do que um Festival, somos um movimento”, afirma Patricia Braga Alves, também da Palipalan Arte e Cultura, idealizadora do CICLO.

O PROPOCULT- Projeto Integrado de Política e Ação Culturais: Interfaces entre Universidade e Movimentos Culturais de Londrina; um projeto de extensão da Universidade Estadual de Londrina, foi uma peça fundamental na hora de aproximar mundos tão diferentes. Além do Brisa, o PROPOCULT promoveu os mesmos encontros entre o CICLO e Open Program com as integrantes do coletivo Plenária das Mulheres Negras do Norte do Paraná, o projeto de leitura Ciranda da Paz (no bairro Nossa Senhora da Paz) e os estudantes universitários da CUIA – Comissão Universidade para Índios, moradores das terras indígenas de Apucaraninha e Rio das Cobras.

De acordo com a professora Patrícia de Castro Santos, o PROPOCULT transborda seus limites e sempre busca articular redes de produção, fruição e solidariedade entre a UEL, agentes culturais, artistas, técnicos, fruidores e poder publico. “O PROPOCULT acredita na arte e na cultura feitas por todos e para todos, acredita que arte e cultura são fundamentais num estado de bem estar social. É pensando que o futuro se fará em redes que o PROPOCULT atuou, e atua, na articulação com as populações participantes do Cartão de Visitas”, diz.

O Brisa, anfitrião dessa primeira ação pública do Cartão de Visitas, é um projeto da Funcart de inclusão sociocultural que visa proporcionar às pessoas que estão em situação de rua ou acolhimento institucional (abrigos), bem como à comunidade em geral, acesso às diversas linguagens artístico-culturais. “É uma oportunidade para o Brisa de ampliar o seu alcance, subir um pouco mais o volume de vozes que são sempre caladas”, afirma Silvio Ribeiro, diretor do projeto, agora na sua terceira temporada.

Para Mario Biagini, diretor associado do Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards e fundador do Open Program, neste momento é essencial, como artistas e ocupantes de espaços públicos, rever drasticamente e renovar radicalmente a própria concepção de arte, e a presença na esfera pública. “A dramática situação global exige que vejamos com lucidez as motivações que nos levam a criar: criar o quê? E por que criar? Para quem? O que estamos servindo com nossas obras e esforços? A resposta não pode ser apenas de natureza estética, como não pode ser um pequeno ajuste de nossas práticas; não pode ter a ver apenas com a sobrevivência, ou simplesmente consistir em uma mudança de performance ao vivo para transmissão online, diz.

Segundo ele, precisamos realmente nos perguntar como nossa posição pode ser instrumental na criação de uma nova imaginação do futuro e como criar espaços de liberdade e agência para os outros. “Agora ou nunca. O desafio é real. Evitar o encontro com este desafio significa sucumbir à tendência tentadora de apenas alcançar nossos interesses mesquinhos e pessoais. É isso que desejamos que nossas vidas sirvam?”, questiona. “A pergunta é alta, forte, gritada por milhões de vozes silenciosas. Nossos ouvidos são necessários”, completa.

O trabalho do Open Program junto aos públicos do Cartão de Visitas começou em julho e foi Graziele Sena, mineira e atriz do grupo, a se ocupar de toda a articulação entre os futuros participantes e o grupo situado do outro lado do Oceano: “É minha responsabilidade como artista fundamentar o meu fazer em um compromisso ético-poético com o mundo onde vivo. Estando de longe nesse momento, os encontros do Cartão de Visitas são momentos de reconectar com a minha gente através desse compromisso, e assim visitar belezas que frequentemente não são reconhecidas e acabam sendo excluídas do que oficialmente se define como ‘cultura’. Enquanto fazemos, estamos nos perguntando quais são as ações necessárias e possíveis nesse momento? Tentando entender quais são as bases desse trabalho que queremos continuar no ano que vem”, afirma Graziele.

Mario Biagini, Graziele Sena e os demais membros do Open Program mantém uma constante comunicação, discussão e interação com os organizadores do CICLO, juntos idealizam um Festival “para” e “das” pessoas, caminhando para além de suposições e hábitos através de um série de ações para conectar continentes, línguas e diferentes modos de vida. Fundado em 2007, o Open Program é um coletivo de artistas de todo o mundo. Tomando o teatro como base, pesquisa as artes cênicas dentro das tradições culturais vivas, criando contextos onde elementos como música e canto, poesia e palavra falada têm um impacto significativo sobre as pessoas presentes. O objetivo é fomentar o pensamento, a construção da comunidade e a cidadania ativa. O grupo, juntamente com o Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards faz parte da estrutura da cúpula Fondazione Teatro della Toscana (Itália).

O CICLO – Aprovado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura e em fase de captação, o CICLO é um projeto idealizado pela Palipalan Arte e Cultura, um festival multidisciplinar e que, além dos apoios institucionais imprescindíveis para a realização do evento, como o a Secretaria Municipal de Cultura de Londrina e o da Superintendência Estadual de Cultura, conta com o apoio de parceiros internacionais, como o Teatro Potlach e o Open Program – Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards, ambos italianos, amigos de longa data da Palipalan Arte e Cultura, com quem já realizaram projetos importantes anteriormente, esses grupos também assinam a coprodução do CICLO 2020/2021. A Folha de Londrina e a RIC Record TV são media partners do evento. Ambicioso, fora do comum, inclusivo e contagiante, o CICLO vem para somar à rica cena de festivais das mais variadas artes que animam o calendário cultural em Londrina há décadas.

O CICLO procura patrocinadores, pessoas – físicas e jurídicas – que acreditam nos propósitos do movimento e dispostas a investirem recursos para fortalecer a arte e o fazer cultural em Londrina. “Queremos ser uma oportunidade diferente e surpreendente para as empresas que, assim como nós, saem mais inspiradas e cheias de esperança depois de meses de muita luta. Procuramos companhia para o novo em um mundo que começa a se abrir e redescobrir tantas coisas”, destaca Patrícia Braga Alves, da Palipalan. “Uma coisa não muda: o bem que a arte e a cultura são capazes de fazer e a própria pandemia foram uma prova disso”, diz.

Foto: Fabio Alcover

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