A cultura do cancelamento é boa ou ruim?

Em pleno século XXI, nos deparamos com um tipo de comportamento que pode se assemelhar, guardadas as devidas proporções, ao código babilônico de Hamurabi, datado de 1.770 anos antes de Cristo. Mas, o que tem a ver a cultura do cancelamento com um conjunto de leis tão antigo? É o que vamos demonstrar na Dica Filosófica de hoje.

O cancelamento é um termo recente que significa boicotar pessoas que cometeram alguma coisa reprovável, seja crime ou não: violência física, violência psicológica, uso de termos machistas ou racistas, comentários desagradáveis, entre outras situações. Mesmo que sejam por pura ignorância ou sem qualquer intenção de fazê-lo. Daí surgem os linchamentos virtuais: haters que atacam as personalidades que cometeram algum tipo de ato assim.

Por um lado, é importante revelar, constantemente, ações que possam ser consideradas reprováveis. Até para que não sejam repetidas. O problema é que tudo está virando motivo de um cancelamento exageradamente desproporcional ao tipo de situação. E aí fica complicado confundir algo que foi dito ou feito por ignorância com um delito passível de punição. Cria-se, portanto, um ciclo vicioso de punições exacerbadas. Incluir tudo no mesmo balaio pode ser pior do que o suposto ato preconceituoso que levou ao cancelamento.

Tal qual se fazia na época do código Hamurabi. As leis talhadas na pedra previam, por exemplo, que se alguém enganar outra pessoa e não puder provar, deveria ser punido com a morte. Ou, então, se você arrancasse o olho ou o dente de outrem, deveria sofrer o mesmo. Daí a expressão “olho por olho, dente por dente”. Mas, será que isso resolve o problema? Ao contrário, pode criar um descontentamento capaz de levar a algo muito pior, posteriormente, quando, na realidade, deveria provocar uma mudança nas estruturas que geram esse tipo de comportamento.

Isso porque a cultura do cancelamento vem, muitas vezes, carregada de julgamentos pré-concebidos e errôneos, que se potencializam com o alcance das redes sociais e com a exposição pública das pessoas, moldadas em caixinhas muito simplórias, que descartam a complexidade de temas que devem ser profundamente discutidos. Não é que esse tipo de atitude não deva existir. Mas, deve ser muito mais responsável do que tem sido.

Fábio Luporini

Sou jornalista formado pela  Universidade Norte do Paraná e sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Fui repórter, editor e chefe de redação no extinto Jornal de Londrina (JL), atuei como produtor na RPC (afiliada da TV Globo), fundei o também extinto Portal Duo e trabalho como assessor de imprensa e professor de Filosofia, Sociologia, História, Redação e Geopolítica, em Londrina.

Foto: Código de Hamurabi/reprodução da Internet

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